Carioca, Paula se mudou para Brasília aos 11 anos de idade. De volta ao Rio, quinze anos depois, passou a caminhar todos os dias pelas orlas de sua cidade natal. Durante essas caminhadas vinha à mente o fato de “alguns” habitarem a mesma cidade sem poderem contemplá-la por deficiência. Neste ponto começava a surgir o desejo de “emprestar” os olhos para quem já não os tinha mais, ou nunca os teve.
Neste mesmo período, a Casa da Gávea, Centro Cultural onde a professora ministrava seu curso de Interpretação Teatral, realizava leituras dramatizadas todas às segundas-feiras, após as suas aulas. Os textos eram lidos com forte carga interpretativsa, mas sem proposta de encenação. Paula assistia a quase todas, fazendo dessas leituras um exercício de direção: ouvia tudo de olhos fechados, visualizando e imaginando as cenas.
Nesta mesma época, matriculou-se em seu curso, o aluno Carlos Ceasar, que por sua vez, ministrava cursos de Contação de Histórias, no Instituto Benjamin Constant, para deficientes visuais. A idéia de produzir espetáculos especialmente para cegos acabou surgindo dessa configuração de fatos. O que ocorreu foi mais o efeito de uma sincronia do que exatamente uma inspiração individual.
Hoje percebemos que nosso trabalho não é só para uma plateia de deficientes visuais. Oferecemos a oportunidade de uma nova experiência sensorial onde os enxergantes vendados podem se colocar no lugar do outro.