O Teatro dos Sentidos é um novo jeito de fazer teatro, uma nova técnica de encenação criada inicialmente para uma plateia de cegos. Estes perdem informações de ações e expressões transmitidas por linguagem visual.
Hoje, depois de 17 anos de evolução deste método de encenação, nosso público é composto também por enxergantes vendados, que já entram no espaço cênico na condição de cegos iminentes. Durante as encenações, com textos devidamente adaptados, os atores exploram os sentidos remanescentes da plateia: audição, tato, olfato e paladar.
De cada 4 brasileiros, 1 é portador de deficiência física. São 45,6 milhões de brasileiros! Aproximadamente 24%, ou quase um quarto da população brasileira. Se já não convivemos, um dia conviveremos inexoravelmente com a deficiência. Seja por doença, fatores genéticos, acidente ou envelhecimento. Se não acontecer conosco, pode acontecer com alguém de nosso ciclo familiar, de amizade ou trabalho.

 Mas onde estão estes deficientes? Experimentando a invisibilidade, trancados em suas casas. Por causa inacessibilidade da cidade, por vergonha da família, descrença da sociedade em seus potenciais, preconceito, baixa autoestima e etc. Urge mais do que nunca mudar este assustador quadro social. Urge tornar a vida do deficiente mais digna e inclusa.

 Como o teatro pode contribuir?
Através do Teatro dos Sentidos a plateia passa pela experiência lúdica e prazerosa de estar na pele do outro, do deficiente. Propiciamos informação e o sentimento intenso de solidariedade que faz a plateia querer mudar esta realidade social.
E como mudamos a atitude de nossa plateia com relação ao deficiente?
Provocamos a inclusão cultural porque o deficiente visual entende totalmente a obra encenada. Empregamos em nosso elenco toda a espécie de deficientes favorecendo a inclusão social, e provocamos também a inclusão atitudinal em nossa plateia de enxergantes, que mudam sua postura diante do deficiente, percebendo-o mais capaz do que se imaginava, já que por instantes se torna “cego”, conseguindo viver esta realidade e ampliando suas capacidades de percepção sensorial.

Foi detectado através de pesquisas que depois da experiência com o Teatro dos Sentidos, a plateia tenta observar o que se pode criar em suas profissões, (assim como demos o exemplo, criando uma nova técnica de encenação) ou como podem agir, fiscalizando a sociedade para que a inclusão dos deficientes aconteça de fato, para que a vida do deficiente possa ter a dignidade merecida por todos: com emprego, como pedestre, com acesso ao transporte urbano,educação, cultura e etc.
E independente de todo este valor social, O Teatro dos Sentidos sempre se esmera em viver e contar uma história que se comunique e emocione intensamente a plateia. Através do riso, adrenalina, enternecimento, encantamento e paixão.

Utilizaremos em 2015, a tecnologia do Som Imersivo, uma novidade na projeção de som, desenvolvida na Alemanha.
Paula Wenke, pensadora do Teatro dos Sentidos começou suas pesquisas em 1997, com seus alunos da Casa da Gávea, Rio de Janeiro.
É teatro para ser “visto” de outra maneira. A imagem do que ocorre é fruto da criação interna e pessoal de cada espectador. O que é provocado é o que chamamos de INTRAVISÃO. A fantasia é estimulada por textos ricos em ação, reflexão, comicidade, romance, dinamismo e também pela exploração dos outros sentidos, evocando a memória pessoal do espectador que cria suas próprias imagens a partir do inconsciente, gerando uma enorme gama de emoções profundas e intensas. Para tanto, temos atores chamados atores/provocadores que são devidamente treinados para executarem tais estímulos que geram esta riqueza de sensações.
Já  a plateia de não-cegos é vendada antes mesmo de entrarem no espaço cênico e devidamente conduzida aos seus assentos .
Definição de Deborah Prates, advogada e cega ao assistir o Teatro dos Sentidos:
“O Teatro dos Sentidos, mesmo tento sido concebido para uma plateia de cegos, por incrível que pareça, destina-se muito mais às pessoas SEM deficiência, do que às pessoas com deficiência. Paula Wenke, no desenrolar da peça, faz com que o público, de modo lúdico, passe a se autoconhecer, se autojulgar e, por tabela, se autoquestionar sobre o que está fazendo nessa Terra. Então, o humano passa a ver o outro. E quem é o outro? O vizinho de poltrona, o amigo, a cidade, o Brasil, o planeta.
O Teatro dos Sentidos faz o interlocutor pensar e, como resultado, a relutar sobre o conhecimento enlatado. Certo é que quando paramos de pensar, numa cultura onde o “ter” se sobrepõe ao “ser”, passamos a entender como verdade o que outros cérebros pensaram para nós.
Agora, a moda é repetir o verbete sustentabilidade. Oportuno, desse modo, focar na figura do tripé como sua representação. Uma perna representa o ambiental, outra o econômico e outra o social. Então, pergunto: é possível falar em social sem acessibilidade? Resposta: claro que não!
Das modalidades de acessibilidade considero a ATITUDINAL a principal, já que se caracteriza pela mudança de atitude/comportamento dos humanos. Indubitável, portanto, que tenha que vir de dentro para fora e não ao contrário, como é o hábito.
O ponto nevrálgico está na ausência da solidariedade e sendo esta um SENTIMENTO (avesso do homem), difícil fica a correção. Como ensinar sentimento? Sempre repito em minhas palestras que: a solidariedade é o sentimento que nos faz humanos. Por conseguinte, esclarecido o porquê de não haver abundância de material de pesquisa específico sobre a inclusão atitudinal. O caso é que não basta, como pensam muitos, estar no lugar do outro. É bem mais; a solidariedade brota de dentro para fora, pelo que não se pode ensiná-la. Exatamente é sentir o sentimento do outro. É trocar de almas… Complexo/difícil! Por isso não há doutrina farta sobre o tema. Falar de algo que não se encontra em prateleiras… do que não se pode comprar.
Eis o foco da acessibilidade atitudinal que a pensadora Paula Wenke – com o Teatro dos Sentidos – consegue passar/energizar a todos que mergulham em sua arte.
Paula Wenke e seu elenco faz imensuráveis exercícios de acessibilidade atitudinal com o público, levando cada pessoa a desarmar a si mesma. Refletir sobre as próprias qualidades, características, gostos; enfim, decodificar os individuais atos e atitudes é imperativo para que se possa aceitar e compreender o próximo e suas diferenças. Todas as pessoas são ímpares/singulares, pelo que se autoavaliar durante o espetáculo é uma atividade hipersalutar para desfazer conceitos e preconceitos.
Com o Teatro dos Sentidos percebemos, verdadeiramente, o que é ÉTICA e, principalmente, que não basta falar em ética para ser ético. Há que haver uma sintonia entre pensar/falar e agir. É dar nova oportunidade a cultura da subjetividade.”